sexta-feira, 6 de março de 2009

Textos de filosofia e sociologia


O que é Filosofia?

À primeira vista, é muito fácil definir o que é Filosofia, basta lembrar das origens gregas do termo: philos (amigo) + sophia (sabedoria). Porém, bem mais difícil é tentar explicar para que ela serve. De fato, a Filosofia não visa a resultados práticos ou imediatos. Ao contrário, ela abre espaço justamente para perguntas como: por que todas as coisas devem ter uma finalidade prática?

Muitos artistas do século XX deslocaram objetos cotidianos de seu contexto habitual, colocando-os em outros, muitas vezes inusitados. Com isso, conseguiram, entre outras coisas, chamar a atenção para o fato de que existem outras realidades além da aparente e de que nem tudo deve ser observado somente em termos de sua utilidade prática.

A Filosofia é um tipo de conhecimento que se justifica por si mesmo. Por isso, não se deve cobrar dela uma aplicação imediata. Faz parte de nossa cultura pensar no conhecimento como um instrumento para a realização de coisas materiais. Porém, essa idéia nem sempre acompanhou o homem, ela foi fruto, principalmente, das mudanças decorrentes da Revolução Industrial, que transformou o conhecimento em técnica, por sua vez utilizada na produção de objetos em larga escala. Esse processo de tal forma afetou nossa vida e mudou nossos hábitos, que passamos a considerar a utilidade prática como única função do conhecimento.

A Filosofia não despreza a realidade concreta, mas também não se limita a ela: constitui-se em busca constante por explicações e tem no seu horizonte o desafio de levar o indivíduo ao conhecimento de si mesmo.

Criando problemas

“Os homens começaram a filosofar movidos pelo espanto”. Essa frase, do filósofo grego Aristóteles

(384 – 322 a.C.), resume bem o sentido da Filosofia: ancorada em nossa capacidade de problematizar, ela ajuda-nos a enfrentar questões fundamentais para as quais normalmente não encontramos respostas em nosso cotidiano. Isso inclui o questionamento sobre si mesmo. Sócrates (470 – 399 a.C.), pensador grego, considerado por muitos uma espécie de “pai da Filosofia”, tinha como um de seus princípios a máxima: “Conhece-te a ti mesmo”. Para atestarmos a complexidade dessa tarefa, imaginemos o seguinte: quando você acorda pela manhã, uma de suas primeiras experiências é olhar- se ao espelho. E, durante o dia, muitas vezes você usa a expressão “eu”. Quando alguém pergunta “quem é você?”, você diz seu nome. Ao mesmo tempo, identifica seu nome com aquela imagem do espelho à qual está acostumado. Mas o que apenas um nome e uma imagem dizem sobre você? Certamente, existem muitos outros atributos (virtudes e defeitos). Será que você sabe exatamente quais são? Você alguma vez já se surpreendeu quando alguém disse que você era uma coisa que você nunca imaginou que fosse? Em outras palavras: quanto de você mesmo você conhece?

E mesmo quando alguém diz que você é “inteligente” ou “bonito”, ou quando alguém diz “somos amigos”, o que isso significa realmente? O que é inteligência, beleza? O que é amizade? O sentido dessas palavras é sempre o mesmo ou muda de pessoa para pessoa ou mesmo ao longo do tempo? A Filosofia não oferece respostas prontas para esse tipo de questão, ou seja: não é um conjunto pronto e acabado de conhecimentos que se aprende. Ela é uma forma de encarar o mundo, uma busca e um questionamento permanentes.

Conceito, reflexão e crítica

O conceito é a base do pensamento filosófico.

Criamos conceitos para nos referirmos mais precisamente a objetos, idéias ou sentimentos. Para isso, é necessário que cada coisa seja designada naquilo que lhe é fundamental. Em outras palavras, conceitos são abstrações, modelos abstratos que podem ser usados sempre que tentarmos identificar ou entender os diversos aspectos da realidade (e de nós mesmos). Pode-se dizer que a Filosofia é essencialmente a atividade de criar conceitos.

Outra característica do pensamento filosófico é que ele depende de um procedimento ou método baseado na reflexão, que deve ser entendida como algo mais do que um simples pensamento. Conhecemos a palavra reflexão do nosso vocabulário de uso cotidiano ou do vocabulário da Física. Simplificando um pouco, o reflexo é a imagem que o espelho nos devolve. Em Filosofia, reflexão significa um pensamento que tem a capacidade de voltar-se contra si mesmo. Isso quer dizer que a Filosofia procura sempre questionar aquilo que já foi pensado.

Dessa forma, não se prende a dogmas (ou seja, a idéias indiscutíveis). Mas, ao mesmo tempo em que rejeita o dogmatismo (a crença inegável num sistema), o pensamento filosófico quase sempre rejeita o ceticismo (no sentido da impossibilidade de se chegar a alguma certeza). Por isso se diz que a reflexão filosófica é crítica. Na linguagem cotidiana, costumamos ligar a palavra crítica ao ato de “falar mal” ou “ver defeitos”: esse não é o sentido filosófico. “Fazer a crítica” significa examinar minuciosamente e, sobretudo, com critério e rigor, sem extremismos e considerando a diversidade de opiniões. Se alguém diz “Não gostei daquele filme”, estará simplesmente emitindo uma opinião, “criticando” (no sentido vulgar da palavra).

Mas, se disser “Não gostei daquele filme porque o roteiro não é original e os atores foram pouco convincentes”, estará fazendo um exame mais minucioso, a partir de critérios mais precisos. Estará, portanto, sendo rigoroso e crítico.

1. Para responder à pergunta que segue, considere a afirmação do filósofo francês Merleau Ponty (1908 – 1961):

“A verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo.”

Em sua opinião, como a Arte e a Filosofia conseguem nos fazer repensar nossa maneira de ver e entender o mundo, as pessoas e a nós mesmos?

Existe uma proximidade entre Filosofia e Arte como formas de multiplicar as leituras do mundo e, nesse contexto, proporcionar uma nova postura do indivíduo diante da realidade (apontando para o conhecimento de si mesmo).

2. Diga qual é a explicação histórica para o fato de buscarmos uma utilidade prática para tudo e aponte as conseqüências desse tipo de postura.

O desenvolvimento da Revolução Industrial e a utilização em larga escala do conhecimento enquanto técnica voltada para a produção de bens materiais que satisfazem este ou aquele desejo material. Como conseqüência, esvazia-se a importância de um conhecimento “desinteressado” (isto é, desvinculado do utilitarismo mais imediato) ou voltado para o conhecimento de si.

3. “Pensamento e discurso são, pois, a mesma coisa, salvo que é ao diálogo interior e silencioso da alma consigo mesma que chamamos de pensamento.” (Platão, Sofista.)

Como sugere Platão, o pensamento é um tipo de discurso com características muito particulares. Com base no texto da aula, diga quais são as principais especificidades do pensamento filosófico.

A Filosofia se funda na capacidade humana de problematizar, bem como apontar os aspectos citados no item “conceito, reflexão e crítica”.

4. Defina brevemente, com suas palavras, ceticismo e dogmatismo e procure ilustrar, com exemplos da realidade concreta, os perigos de uma postura extremada.

O ceticismo em relação à política é algo bastante comum no Brasil de hoje. Os dogmas da religião católica costumam ser do conhecimento de todos.

5 – Leia o trecho do texto “O Inutensílio”, do poeta Paulo Leminski, e responda: por que o autor afirma que as coisas inúteis são a própria finalidade da vida?

O indispensável in-útil

As pessoas sem imaginação estão sempre querendo que a arte sirva para alguma coisa. Servir. Prestar. O serviço militar. Dar lucro. Não enxergam que a arte (a poesia é arte) é a única chance que o homem tem de vivenciar a experiência de um mundo da liberdade, além da necessidade. As utopias, afinal de contas, são, sobretudo, obras de arte. E obras de arte são rebeldias.

A rebeldia é um bem absoluto. Sua manifestação na linguagem chamamos poesia, inestimável inutensílio. As várias prosas do cotidiano e do(s) sistema(s) tentam domar a megera. Mas ela sempre volta a incomodar.

Com o radical incômodo de uma coisa in-útil num mundo onde tudo tem que dar um lucro e ter um por quê.

Pra que por quê? (Paulo Leminski, Anseios Cripticos, 1986.)

Para o autor, a inutilidade das coisas nos garante a liberdade: é uma espécie de rebeldia contra um sistema que nos amarra pela criação de necessidades que não conseguimos nunca satisfazer.


Sociologia/ Individualismo e coletividade

(...) Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é parte do continente, parte do todo.

Se um seixo* for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se fosse um promontório**, como se fosse uma

parte de vossos amigos ou mesmo vossa; a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; por isso, nunca procureis saber por quem os sinos dobram, eles dobram por vós. (...) (John Donne (1572 – 1631), fragmento de “Meditações XVII”.)

* seixo: fragmento de rocha transportado pela água; cascalho.

** promontório: cabo formado por rochas ou penhascos altos.

Tanto a emblemática imagem dos metalúrgicos do ABC quanto o célebre trecho do poeta inglês John Donne fazem uma espécie de elogio à coletividade (ao “todo”), lembrando que ela é formada por indivíduos, ou seja, por pessoas que têm sua história, seus anseios, e contribuem para que esse “todo” seja o que é. Em outras palavras, a coletividade é o resultado das interações entre os indivíduos.

Justamente por isso a democracia tem por ideal garantir, a um só tempo, os direitos individuais e o bem comum. Em sua opinião, isso é possível? Em última instância, o que deve prevalecer: o bem da coletividade ou as liberdades individuais? Existe saída para essa tensa relação?

Um pouco de teoria

Individualidade e individualismo

Recorrendo à linguagem figurada, John Donne defende que todos os homens são “parte” de um mesmo “todo” e que a morte de qualquer indivíduo representa um prejuízo para todos, já que ninguém pode viver como “uma ilha, sozinho em si mesmo”.

O que o poeta inglês diz em linguagem literária corresponde a um verdadeiro consenso entre os intelectuais das humanidades. A formulação aristotélica de que “o homem é um ser social” apenas confirma que os seres humanos se organizam em grupos, o que pressupõe, simultaneamente, a celebração dos valores comuns e a necessidade de conviver com as diferenças.

Isso não significa que os homens não tenham sua individualidade. Todo ser humano tem suas crenças pessoais, seus sonhos, seus medos, suas habilidades e suas limitações. Aliás, a individualidade pode ser definida assim: como o conjunto de características que distingue as pessoas, garantindo-lhes a originalidade, a unicidade, a particularidade.

Acontece que, embora o homem possa ser tomado como um indivíduo, isto é, como alguém que é considerado isoladamente no grupo a que pertence, esses valores individuais não podem chegar ao extremo de desprezar a idéia de que somos seres sociais. Afinal, individualidade não pode ser confundida com individualismo.

Entendemos por individualismo a atitude de quem procura satisfação pessoal a qualquer custo, vivendo exclusivamente para si; trata-se de um comportamento – digamos “egoísta” –, que nega todas as formas de solidariedade. Dessa forma, o individualismo é incompatível com a idéia de que o homem é um ser social. Já a individualidade não se confunde com o egoísmo, uma vez que podemos viver em grupo e, ao mesmo tempo, ter características que nos diferenciam das demais pessoas.

Do ponto de vista lógico, todos os homens são indivíduos, pois são seres concretos, que possuem unidade de características e podem ser reconhecidos por meio da experiência. Existem várias disciplinas que se interessam, em maior ou menor grau, pelo estudo do indivíduo, como a Psicologia, a Biologia ou a Filosofia. Para nós, neste curso, importa o estudo da sociedade.

Sociedade e Sociologia

Podemos rearranjar a citação de Aristóteles e concluir que o homem, embora tenha sua individualidade, vive em sociedade. Isso só confirmaria a afirmação de que “nenhum homem é uma ilha”: a sociedade é um agrupamento de pessoas que formam uma coletividade, uma comunidade, ou seja, é um conjunto de indivíduos que vivem num determinado momento e num determinado lugar, que seguem as mesmas normas e têm valores semelhantes.

O conceito de sociedade, como se vê, é bastante abrangente, pois pode designar tanto um grupo muito amplo – como a sociedade do século XXI – quanto agrupamentos mais específicos – como a sociedade cristã medieval.

Desde a Antigüidade Clássica, principalmente com Aristóteles, vários intelectuais se interessam pelo estudo da sociedade. Em épocas em que se valorizou o pensamento especulativo ou a observação analítica da realidade – como aconteceu em momentos do Renascimento ou do Iluminismo –, sempre houve quem se debruçasse criticamente sobre o estudo das sociedades humanas. Porém, até meados do século XIX, não existia ainda uma ciência da sociedade.

Foi precisamente durante o Oitocentos, sob os eflúvios libertários da Revolução Francesa e as transformações tecnológicas da Revolução Industrial, entre a consolidação do Capitalismo e o acirramento da luta de classes, em meio à independência das colônias americanas e ao fim da escravidão, que surgiu a Sociologia.

Montesquieu (1689 – 1755), Saint-Simon (1760 – 1825), Auguste Comte (1798 – 1857) e Alexis Tocqueville

(1805 – 1859), entre outros, foram os precursores do pensamento sociológico moderno, pois notava- se em suas obras a intenção de investigar e explicar a vida social. Alguns anos mais tarde, já na segunda metade do XIX, quando o Positivismo, o Evolucionismo social e o Determinismo ganharam força, como era esperado numa época marcada pelo cientificismo, a Sociologia emergiu como ciência.

Marx, Weber e Durkheim

Três pensadores podem ser considerados os pais da Sociologia: Karl Marx (1818 – 1883), Max Weber

(1864 – 1920) e Émile Durkheim (1858 – 1917). Eles deram dimensão científica à disciplina e, de modo mais sistemático, começaram a estudar as formas de organização e as regras de funcionamento das sociedades humanas, procurando determinar as normas que regem as relações sociais, o que implicou a análise das instituições e dos comportamentos sociais, bem como da ideologia, da cultura e das relações de trabalho que se construíam no mundo capitalista.

Mas a Sociologia, em sua tarefa de estudar os indivíduos em grupo, em sociedade, como seres sociais que somos, é mais do que uma ciência. Além de procurar compreender – com rigor de métodos e técnicas de investigação – a sociedade moderna, os sociólogos muitas vezes demonstraram desejo de intervir na ordem social, de maneira que as reflexões científicas se misturaram às intenções práticas. Nada mais previsível. Já que vivemos numa sociedade multifacetada, em que há valores divergentes e choque de interesses, era de se esperar que os sociólogos não se comportassem como um “técnico que disseca um cadáver”. A sociedade é um organismo vivo, complexo, que se modifica continuamente; por isso, para compreendê-la, muitas vezes é preciso posicionar-se dentro dela, no olho do furacão que é “o espetáculo do mundo”, como diria Fernando Pessoa.

1 - Leia a tirinha para responder à questão que segue.


Como você classificaria a visão de mundo de Manolito? Justifique.

Certamente, pode-se considerar que Manolito é um individualista, pois para ele todas as questões, por mais amplas e complexas que sejam – como as viagens espaciais, por exemplo –, passam pelo filtro do que poderíamos chamar de uma “individualidade exacerbada”. Em outras palavras: o mundo só faz sentido se puder lhe trazer benefícios pessoais (no caso, ao armazém de seu pai).

2 - Analise as duas frases a seguir e verifique se elas se aproximam mais do conceito de individualismo ou do de individualidade.

I. “O homem busca seu próprio bem à custa do mundo inteiro.” (Robert Browning, poeta inglês.)

II. “Cada homem é uma humanidade, uma história universal.” (Jules Michelet, historiador francês.)

A frase I remete a um sentimento de egoísmo, típico de quem defende o individualismo, pois a satisfação pessoal é colocada em primeiro plano, enquanto a solidariedade é esquecida. Já a frase II sugere que todas as
pessoas são uma “história universal”, pois cada uma tem a sua individualidade, isto é, crenças, sonhos, medos, habilidades e limitações particulares.